Durante anos, adiei esta viagem. A quase necessidade de o fazer digladiou-se com a resistência alimentada pelo receio: «Tenho de lá ir. Mas, não agora. Não sei se me aguento». Todos os argumentos se tornaram tão válidos para ir quanto para ficar. Quando finalmente aterrei em Cracóvia, em agosto, percebi que a inquietação não tinha ficado em casa.
A minha professora de História do secundário foi responsável por este dilema. Nunca a esqueci. Além de ensinar, abriu-me o horizonte. Fez-me compreender que o passado não é um tempo encerrado lá atrás.
Ao explorar a cidade, fui invadida pelo poder da magia dos lugares desconhecidos. É um perfeito postal ilustrado. Vivo, cheio de cor e de sons de variadíssimas línguas. As ruas cheiram a pączki[1] e a sol.
A leve brisa agita as crinas dos cavalos que, nas charretes, transportam turistas curiosos. É possível que estejam a concretizar algum sonho de criança puxado por um cavalo bem arreado, emoldurado por uma espécie de tradição.
Na Praça do Mercado, o famoso trombeteiro de Cracóvia encontra-se no topo da torre mais alta da Basílica de Santa Maria, de onde, a cada hora certa, vinte e quatro horas por dia, sopra quatro vezes a mesma melodia. Uma para cada ponto cardeal. Tento virar-me para o meu vento, embora não seja trompetista.
O mercado vai contando velhas histórias. Veste-se de folclore e exibe inúmeras peças em âmbar. O pendente oval com uma flor amarela no interior não passa despercebido. Hesitei. Era demasiado caro.
Caminho pela cidade. Nos pés, sinto o solo e também a vibração do que me envolve. Os pulmões absorvem outra atmosfera que inspiro e me transporta mais para o meu interior. Sentir com os pés e com os pulmões para depois pensar.
Tudo me encanta até ao momento de avançar setenta quilómetros para lá da cidade. Ainda vacilo, ciente de que avançarei. Procuro não me bloquear e tento aproveitar tudo o que o dia me oferece. Sento-me à sombra para ocultar outras sombras. Mas elas perseguem-me. Não lhes quero dar confiança, mas não posso ignorá-las.
No dia previsto, já com os bilhetes de entrada comprados, como convém, dirijo-me à estação rodoviária para apanhar o autocarro com destino a Oświęcim. Este é o nome verdadeiro, não o que, durante a Segunda Guerra Mundial, lhe atribuíram por conveniência do ego do Führer.
Percorro a estrada sem sobressaltos, sem dor, mas com muita expectativa. O autocarro segue praticamente cheio, quase na totalidade por turistas. Os naturais que vão entrando e saindo nas poucas paragens ao longo do percurso olham com a indiferença de quem já se habituou a estas enchentes.
Dou-me por muito feliz por não ser passageira de um vagão, também lotado, de condenados por crimes inexistentes. Por pertencerem a um grupo étnico diabolizado. Homens, mulheres, crianças e velhos. Todos irreversivelmente alinhados para a morte. Mais cedo ou mais tarde. Uma questão de tempo. Cinzas.
Quando desço do autocarro, surpreende-me a dimensão do famoso portão encimado pelo epiteto: «Arbeit macht frei»[2]. Liberta? Quem? De quê? De facto, é bem mais pequeno do que imaginava. Alguns portões de quintas (das verdadeiras) são maiores e mais robustos.
A manhã projeta no chão sombras das folhas das árvores, formando uma tela que poderia ser poética ou ensombrada por uma realidade que ali habitou e que, apesar do tempo, continua presente como um adesivo.
Michal, o guia polaco, em inglês, dá as boas-vindas aos visitantes. Contextualiza o espaço e apela ao respeito e comedimento que o local impõe. Alguns acomodam-se, prontos para as selfies, em pose glamorosa, em frente ao primeiro barracão. De imediato e de forma tranquila, o guia desaconselha-os: «Respeito.» Faz uma pausa. Bebe um gole de água e continua: «Tudo o que vamos visitar é algo que ultrapassou a linha que separa a civilização da barbárie.»
Sucedem-se os barracões. Fico estática a observar a quantidade infindável de próteses, óculos, sapatos e malas expropriadas aos seus donos. Fico petrificada com a quantidade de cabelos. Demoro-me numa longa trança escura presa por um travessão em forma de flor. Imagino que possa ter pertencido a uma criança. Imagino que tenha sido separada da família e, sem utilidade, tenha sido encaminhada para alimentar as chaminés vorazes.
Mantenho-me num ato mecânico. O meu corpo vagueia ao sabor da mente que o comanda em ordens lentas. Não se tornou preguiçoso, nem assim tão cansado. Não melhorou com o andamento. Logo depois, lá estão as latas do gás zyklon B, testemunhas mudas de uma engenharia química ao serviço da «banalização do mal».
É então que chego às câmaras de gás. Do teto, pendem os chuveiros que aspergiam o gás. Ainda lá está a estrutura. Ainda lá permanece um cheiro indefinido. Quem me acompanhou jura que não cheirava a nada. Sinto-me aflita. Encerrada. Condenada. A minha estatura muito mediana causa-me um imenso desconforto. Esticando um braço e em bicos de pés, consigo tocar o teto. Imagine-se alguém mais alto.
Quase a finalizar, os fornos crematórios que os nazis não conseguiram desmantelar jazem sem hipótese de fuga. A minha professora dizia que acreditava que o Diabo teria andado por ali como aprendiz. Como já muitos perguntaram: «Onde estava Deus?» e «Onde estava a humanidade?» Michal tenta ser rigoroso no relato dos acontecimentos, mas no brilho dos seus olhos é possível distinguir uma certa névoa.
E o que dizer das experiências médicas feitas a gémeos? E as ginecológicas? E as humilhações? E as sevícias produto de uma criatividade incrivelmente maligna? Sempre sem remorso.
Saio inteira. De cabelo curto, por opção. Em silêncio. Depois, em Birkenau, percorro a linha paralela à do comboio e, mais uma vez, agradeço a minha condição de turista.
Prefiro caminhar. Sentir o calor de agosto. A floresta, hoje menos densa do que outrora, acolhe-me num colo duro. Avisto uma árvore caída, de raízes mirradas. Na cavidade do tronco, reconheço uma pequena flor amarela. Continua a tentar erguer-se.
[1] Doce típico polaco, semelhante ao donut.
[2] «O trabalho liberta.»
Texto finalista do desafio do Clube dos Writers
5 Responses
Adorei. Quero visitar a Polónia.mas faço questão de não ir ao campo de concentração.
Obrigada. Também resisti muito a ir lá. A Polónia é uma excelente jornada de viagem.
Foi uma viagem às sombras de um tempo de ódio.
Por ali, ocorrem-nos pensamentos tristes e a pergunta calada sobre o sentido de Humanidade.
Parabéns pelo texto tão visual. Já visitei. Na leitura, senti novamente
aquele aperto triste que já experimentei.
Foi uma viagem às sombras de um tempo de ódio.
Por ali, ocorrem-nos pensamentos tristes e a pergunta calada sobre o sentido de Humanidade.
Parabéns pelo texto tão visual. Já visitei. Na leitura, senti novamente
aquele aperto triste que já experimentei.
Obrigada pelo comentário. Tinha mesmo de escrever sobre o assunto.