Ondulações
Viajar é um verbo de fácil conjugação. Todo direitinho sem exceções. Eu viajo, tua viajas, ele(a) viaja… Eu viajo muito sem sair de onde me encontro e dou asas aos meus desejos à boleia das páginas dos livros. Sem grandes despesas, nem burocracias de vistos ou de passaportes, embrenho-me nos espaços mais divulgados e nos mais extemporâneos.
Com frequência, vagueio aos tombos no meu interior e, não raras vezes, enjoo e embato em obstáculos imprevistos que não me deixam avançar. Tento cortar caminho por diferentes vias, mas estando bloqueada uma, as outras enviam alertas de barramento.
Sigo por rotas surpreendentes e, pelo gosto e estudo da História, não me faltam roteiros de evasão. O país do Sol Nascente seduz-me pela sua civilização milenar envolta, ainda em algum mistério e encantamento. Nos dias que correm está na moda gostar do Japão desde as tiras de mangá até à prática do kyudo. Não sou muito de modas. Cultivo velhas paixões que, ao longo do tempo, se podem tornar em amor, mas nunca em compromissos até que a morte nos separe. Não prometo nada. Não prometo não mudar.
Decido iniciar, a minha viagem pela consulta da obra de Wenceslau de Moraes e embarco nas páginas da primeira História do Japão escrita pelo padre jesuíta Luís Fróis. Navego no mar alto, enfrento os humores da natureza, aproveito os ventos de monção a bordo de uma nau comandada por um piloto experiente. É preciso confiar no homem do leme e no manejo eficiente do astrolábio e do quadrante. Já a balestilha me inspira menos confiança por ser tão sensível ao sabor da flutuação das águas.
Claro que, nos primeiros dias, nem me aproximo da amurada a menos que o estômago dê tantas reviravoltas que o tenha de despejar de urgência. No convés vou entabulando conversa com os marinheiros que, espantados me olham de soslaio, desconfiados com uma presença feminina que não tenha o condão de os animar e lembra-lhes os prazeres carnais.
Demoro o meu olhar no labor do escrivão e tento ler o que vai registando, sem dar nas vistas. Como se isso fosse possível.
— Precisa de alguma coisa? Em que lhe posso ser útil?
Socorro-me do meu sorriso mais encantador, não sem antes pestanejar divertida.
Duarte Nunes não larga a pena, mas tem de ter cuidado para não se alongar muito, pois a tinta e o pergaminho, ainda que não da melhor qualidade, são caros e não podem ser desperdiçados.
— Escrivão, o que te vai na pena? — arrisco.
— Como pode isso interessar a uma dama?
— Gosto muito de observar o voltear do aparo e toda a mancha gráfica que vai surgindo em cada folha.
— Não entendo o que queres dizer. O melhor será ajudares o mestre cozinheiro. Podes ensinar-lhe receitas novas. Estou farto desta comida.
Não respondi, pois não passo de uma passageira clandestina e, para falar verdade, para além de omeletes, pouco sei fazer.
O padre Hermínio da Nóbrega abeirou-se de mim e, caridosamente, dirigiu-me a palavra:
— Minha filha, andais perdida?
— Não se preocupe, ao virar da página, já me encontro. Vou fazer uma pequena pausa. As dores não me largam. Preciso de descansar.
“Olha agora, o padreco a querer meter-se onde não deve! Não tenho satisfações a dar-lhe”.
Estiquei-me na esteira e acomodei-me o melhor possível para amainar a dor no nervo ciático que, a todo o momento, faz questão de me morder. Adormeço. A nau continuou a vogar e, muito ao longe, ainda consegui ouvir o burburinho da vida a bordo. Acordei com o grito vindo da gávea, ”Terra à vista! Terra à vista!”
Sobressaltada agarrei no livro e, um pouco desorientada, lá dei com os cantos à nau. Ansiosa, perguntei ao moço lá do alto do mastro.
— Já estamos a chegar? Já se avista o Japão?
— Não sei porque diabo vem a bordo uma mulher sem qualquer serventia! Então não sabe que primeiro temos de parar em Goa? O Japão não é logo ali.
— É a primeira vez que venho a estas paragens. Acha que é por ser mulher que não estou bem situada?
— Ali o senhor padre é que sabe bem dessas coisas. Mas vou dizer-lhe, ainda temos mais dois pontos de paragem, um em Malaca e outro em Macau. Depois é que lá se avista o Japão e, em Nagasáqui, aportamos. E não me faça mais perguntas.
“Deixa, Toninho Cabeçadas, não te volto a incomodar. Se tiver dúvidas vou ao índice ou procuro no motor de busca.”
Ao virar da página, o padre, abeirou-se, encetando nova conversa:
— Minha filha, como explicas a tua presença nesta nau? Não me recordo que me tenham informado que uma formosa dama viria connosco. É que, sabes, também és enigmática. Ora apareces, ora ninguém dá contigo.
— Não há motivos para preocupação. Gosto de aprender e de ver coisas novas. Gosto de tentar perceber se o que sei poderá responder ao que sou.
O levantar da sobrancelha direita que marcava linhas rugosas na testa do clérigo divertia-me. Não consegui perceber como conseguia fazer aquilo assim tão facilmente. E ainda o mais engraçado era sentir o seu desnorte e a falta de resposta perante a minha afirmação.
— Reza, reza a Nossa Senhora dos Aflitos. Ela atende os que andam perdidos seja onde for. Ela ouve todos. Tens é de ter muita fé!
— A Senhora é generosa, já me informaram. E eu sou teimosa. Tenho fé que um dia consiga mesmo encontrar-me e chegar até mim.
O padre Hermínio ergueu os olhos aos céus, juntou as mãos e, em latim, desfiou uma ladainha impercetível. Não estudei latim…
Ao chegar, finalmente, a terra despedi-me e acenei à tripulação que continuava baralhada sem saber ao certo se eu era real ou obra de algum tipo de delírio sofrido pelos navegadores estafados. Mesmo assim, Duarte Nunes foi o único que levantou a mão para me acenar.
Em terra nipónica cumprimentei o meu guia com uma vénia e segui-o no percurso até uma aldeia tradicional. A casa onde fiquei instalada era simples. Não vi móveis a não ser mesas baixas. Não vi qualquer sinal de riqueza material.
Fui bem acolhida sem grandes sorrisos ou demonstrações de simpatia. Mas, inesperada e genuinamente o meu interior aquietou-se, deixando-me mais tranquila.
Foi-me servido um chá quente sentada de joelhos no tatami. Uma mulher vestida com um kimono de seda cor da flor de cerejeira, ao canto da sala, tocou shamisen. Deitei-me, adormeci e, mais tarde, acordei vagamente em mim.