OBRIGADA A MIM

Obrigada a mim, que com ares de elegância, de manhã, reúno os cacos das noites mal dormidas. Estico-me e ouço o som crocante das articulações. A cabeça impõe o ritmo do latejar. O cansaço adere ao meu corpo como gosma fora do prazo de validade que, por isso, ainda é mais viscosa. Antevejo o dia gigantesco. Não me quero levantar. Mas, num lampejo, salto da cama e agradeço o raiar do sol, mesmo sem musiquinhas de fundo do tipo “seja feliz”.

Obrigada a mim por não ter cedido à tentação de me dissolver entre os lençóis mornos e as vagas promessas de fuga. Por ter de enfrentar o que já não me diz nada na esperança de encontrar algo que me sussurre tudo.

Obrigada a mim por vestir a pele da resiliente. Daquela que não foge ao desafio e enfrenta tudo com um sorriso ainda que no interior haja sempre um rio a pulsar, ora de dor, ora de solidão. Mas sou eu que decido! Sou eu quem mais ordena.

Obrigada a mim por conseguir dominar situações adversas e tentar encontrar o lado mais aprumado da folha amarrotada. Sou eu que mereço uma medalha pela paciência. Por me conter e não verbalizar aquele merecido “vai à merda”. Mesmo assim, debaixo da capa da ironia, lá vai ele disfarçado com assinatura e papel timbrado.

Obrigada a mim por continuar a amar como os poetas amam. Perdidamente. Amar patetices e coisas ridículas. Por insistir em ternuras improváveis, por regar ausências como quem planta na areia. Por acreditar com a fé de uma energia gigante.

Obrigada a mim por continuar a escrever. Por transformar a dor em frases, as fraquezas em texto, a raiva em vírgulas, muitas vezes mal colocadas. E achar que é literatura. E rir disso. Rir até do que ainda dói, mantendo alguma lucidez.

Obrigada a mim pelas vezes em que quase me fui embora e fiquei. Por ter resistido ao impulso de me evaporar. Por ter dito “Vai passar. O caos tornar-se-á criador”. Também agradeço todas as vezes que fui capaz de bater com a porta e desparecer.

Obrigada a mim por continuar inteira mesmo quando tudo em mim já se desfez em pedaços. Dos bons, aqueles que se derretem na boca e escorrem pelo esófago num arrepio de prazer. Por sentir e ser eu, ainda que em prantos que me enlouquecem o coração.

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