Naquele dia, o mar estava cheio de ideias. O céu abria-se com a cor de melancia madura, e as nuvens descansavam em almofadas com asas. Mariana caminhava descalça pelo areal molhado, sentindo os grãos a fazerem-lhe cócegas nos dedos. Tinha o cabelo emaranhado de vento e de areia. No sorriso cabia o oceano inteiro. Os bolsos dos calções estavam sempre cheios de conchas. Colecionava-as. Também procurava histórias de gaivotas tagarelas, de caranguejos bailarinos e de estrelas-do-mar que sonhavam em ser cometas.
Uma onda atrevida trouxe à praia uma flor. Não era como as dos canteiros do jardim. Nem de plástico. Era uma flor-do-mar, azul-brilhante, com pétalas fininhas que rodopiavam como bailarinas. A cada movimento, a corola cantava em coro!
— Lai-lari_ó ai-lai-lari!
Mariana riu.
— Que flor tão animada!
À beira de um mar tão intenso onde até os peixes usavam óculos escuros, a menina tocou nas pétalas da flor. Ouviu-se, toc-toc-toc… Seria um tambor? Aproximou o ouvido direito. Era o som de cascos. Na praia?
De entre as ondas apareceu um O corpo era feito de espuma escura. A crina dançava como as algas. Os olhos pestanudos brilhavam refletidos nas águas. Dirigiu-se a Mariana num relincho de trovão gentil.
— Ouviste a flor? Estava a chamar-te.
— A flor chamou-me? Tens a certeza?
O cavalo confirmou.
— Ela escolhe quem tem coração curioso e pés descalços.
Depois, fez-lhe sinal para que o montasse. A menina não hesitou e, curiosamente, não teve medo. Não sabia para onde a levava. Ele galopou em direção ao mar. As ondas abriram-se como cortinas. Mergulharam juntos no fundo do oceano.
SPLASH!
Lá em baixo, o mundo abriu-se de novidade. Tudo era cor e música… ou melhor, tudo tinha sido. Porque agora, aquele lugar estava debotado, sem som, nem riso. As conchas estavam tristes e mais fechadas. Os peixes nadavam em círculos sem conseguirem encontrar o seu caminho. Os corais murchavam, cinzentos como nuvens chorosas.
O cavalo parou diante de um palácio feito de cristais. Uma mulher apareceu flutuando com a ajuda da longa cauda dourada. Era a Rainha Coral, dona de uns olhos de pérola e de voz que cheirava a hortelã marinha.
— A alegria deste lugar foi-se embora há muito tempo. Já nem sabemos como é viver em paz. Estamos tristes, Mariana. E ninguém sabe como voltar a sorrir.
Mariana apertou a flor que ainda segurava. Vibrou compassada com o seu coração. Talvez… talvez ela soubesse o que fazer.
— Eu posso tentar ajudar. Vou precisar de um palco, de ouvintes e de um lugar bem confortável.
A rainha ordenou que se convocasse os seus súbditos. A reunião decorreria na praça coralina.
Sentada numa almofada de medusas, Mariana apreciou os espectadores. Estava cercada de polvos enroscados nos tentáculos, cavalos-marinhos atentos, tartarugas com dentes de leão, peixes atentos e até um tubarão simpático.
— Prontos? Obrigada por terem vindo. Não sei dizer muitas coisas, mas sei contar histórias. Adoro histórias. E vocês?
Ninguém se lembrava, ao certo, o que era uma história. Há muito tempo que não ouviam nenhuma. Todos tinham muita pressa e foram-se esquecendo do que isso é. Raramente paravam para escutar. O bernardo eremita abeirou-se e, espreitando da sua concha. Pediu a palavra.
— Tenho algumas na minha gaveta. Só não as conto porque tenho vergonha.
— Então, proponho que comece eu. Depois contas tu outra.
Mariana contou a história de uma lula que queria ser bailarina, mas tinha oito pés descoordenados. Isso não a atrapalhou. Todos lhe acharam graça e esse tipo de dança tornou-se moda. Logo as lulas presentes começaram a dançar como bem lhes apetecia.
O bernardo eremita, um pouco tímido, contou a história do 1,2,3, vamos lá cantar outra vez. Todos cantavam e pediam ‘outra vez, outra vez’.
A cada história, uma gargalhada. Um turbilhão de bolhas foi-se soltando. Cada bolha lançava jatos de cor. Os corais voltaram a brilhar em vermelho e laranja. Os peixinhos cantavam. Um polvo começou a pintar quadros com tinta de lula. As conchas batiam palmas. Até uma raia dançou uma valsa desajeitada com uma lula!
A Flor flutuou até o alto do palácio e explodiu numa dança de pétalas luminosas. No centro da reunião, cresceu um jardim de flores do mar. Cada uma de uma cor, com uma melodia diferente. Era como se a paz tivesse voltado para brincar.
A Rainha Coral aproximou-se.
— Obrigada, Mariana. Vieste lembrar que contar histórias também é uma forma de ajudar. Que ouvir com atenção nos acalma. Que encontrar a paz não é assim tão difícil.
O cavalo preto reapareceu, relinchando de alegria. Mariana despediu-se dos novos amigos e montou o dorso de espuma e sal.
Na praia, as gaivotas acolheram-na pigarreando de curiosidade. Ao longe, o cavalo acenou-lhe com a crina.
Com os pés descalços e a cabeça cheia de mar, Mariana revolveu os bolsos. As conchas ainda estavam lá, assim como o que restou da flor-do-mar. Uma gaivota aproximou-se, levantou as asas com ares de maestro e começou a cantar:
Flor azul do mar fundo,
abre sorrisos neste mundo.
Mar, cavalo, paz no ar,
vem a história contar!
Quem tem uma concha no ouvido,
ouve um conto escondido.
Canta, dança sem parar,
Com a Mariana vamos ajudar!
A menina deixou-se ficar a ouvir o mundo. Há quem veja o oceano como água, e há quem o veja como biblioteca.