O Bolo de Chocolate

O telefone tinha acabado de tocar. Escutei. Não tive qualquer reação. Enregelei em pleno verão. O cheiro a estio deu lugar ao vómito sulfuroso. A ceifeira rondava descaradamente. Sorria de foice em riste ciente de mais uma vitória anunciada. Era só uma questão de tempo.

Vesti-me com a pele possível e, ao sabor do mecanismo interno, o caminho rumou ao IPO. A Dulce estava prestes a deixar-nos. A antecâmara da morte abrira-se. Cada um podia entrar e despedir-se à sua maneira. Era só uma questão de tempo.

O corpo inerte aparentava a solidez gelatinosa dos convidados do barqueiro: “À barca, à barca, vinde navegar”. A realidade líquida permanecia imóvel sem qualquer sinal de verve. Fixei o meu olhar na cabeça alva e nas mãos inchadas que outrora desenharam sonhos e construíram mobiles de fantasia. Era só uma questão de tempo.

Os dias foram passando trocando as voltas à segadora. A Dulce recusou o convite da travessia e arredou a gadanha. Abriu os olhos. Num sopro chamou pela mãe. A enfermeira arrepiou-se incrédula. Um ténue fio da vida pulsava. Ainda não era agora.

O telefone tocou. Escutei. O coração disparou. Corri ao IPO. A minha amiga lutava com todas as forças. O bicho ainda não tinha ganho a batalha. Entre inúmeras terapias e intervenções cirúrgicas, o maldito cancro recuava e avançava.

A Dulce sorria num esgar. Prometeu-me que ainda não seria vencida e pediu-me que fizesse bolo de chocolate com a receita que me dera. Apetecia-lhe tanto!

Aprendi que a vida, ainda que amarga, deve ser degustada e que, o previsível não existe. Apenas a esperança do embarque para a outra margem quando assim tiver de ser.

A minha Dulce, em paz, partiu passados dois meses. Há doze anos que saboreio o bolo de chocolate de acordo com a sua receita.

 

 

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