Luzia e o Escuro

Desde criança que Luzia não gostava do escuro. Apavorava-a a ideia de o dia se apagar para acender a noite. Monstros, sons aterradores e correntes de ar estranhas fluíam no seu mundo sombrio e tolhiam-lhe os movimentos. De noite, cerrava bem os olhos. Ficava tão quieta que, nem mesmo, pestanejava, não fosse o movimento dos cílios atrair a atenção de mais criaturas assustadoras.

— Mãe, o escuro é mau, não é?

— Nem sempre. Para haver luz tem de haver breu. O dia e a noite são inseparáveis.

A mãe sempre adorou a noite, encontrando-lhe um encanto especial quando o luar se reflete nas águas do riacho da aldeia. Nesses momentos, veste uma longa capa preta de veludo, enfia a farta cabeleira no capuz e avança caligem adentro como um gato fugidio seduzido pelo negrume.

Na aldeia é conhecida por Luna, a feiticeira. Ninguém sabe ao certo o seu nome, nem as suas origens. Nunca demonstrou possuir poderes malévolos mas, está permanentemente enamorada pela face mais oculta dos dias. Caminha em passo felino pelo campo e colhe estevas com as quais produz óleos essenciais que vende na feira todos os sábados.

Luna vive só com a filha, cuida dos campos em volta da casa, limpa o tanque comum da aldeia e perfuma as ruas com alecrim. Ninguém sabe de onde veio. O certo é que chegou, há mais de 10 anos, grávida, carregando uma sacola cheia de quase nada e se acomodou no alto da aldeia protegida pela noite num casebre abandonado.

Luzia crescera livre, abraçada pela natureza. Ajuda na agricultura e na criação de algumas galinhas e de patos. A mãe não os come. Vende-os na feira. Aprecia mais todos os alimentos da horta, cozinhados em sopas suculentas e o pão bem amassado e cozido no forno comunitário.

Aquando da sua chegada à aldeia, a população marginalizou a bela mulher de longos cabelos ondulados, de olhar firme e rica de coisa nenhuma. O Regedor Abel cioso do cargo que desempenhava e motivado pelos receios populares, resolveu investigar.

Deslocou-se ao casebre do alto do povoado e, com preceitos de autoridade, interrogou:

— Minha senhora, sou o Regedor Abel. Venho saber quem é e o que vem fazer para a nossa aldeia. O povo está inquietado. Não queremos forasteiros indesejados a quebrar a nossa paz.

— É exatamente o que procuro. Paz. Estou sozinha na vida à espera da companhia que agasalho no ventre. Espero por uma centelha que me guie. A minha nebulosa será o dia de Luzia.

O homem não entendeu nada embora tivesse ficado com a sensação de que aquela mulher não constituía perigo. Ambos conversaram mais um pouco, tendo Luna prometido que nunca poria ninguém em qualquer situação de risco. Apenas ansiava por uma oportunidade para trazer à luz a criança que estava prestes a nascer, tendo a convicção que seria uma menina.

Na noite seguinte gritou a plenos pulmões a dor do parto. O grito ouviu-se por toda a aldeia e Alice, parteira de serviço, não resistiu em correr a ajudá-la. Quando chegou já a cabeça do bebé iniciava a viagem até à luz da noite.

— É uma menina perfeitinha e saudável. Como lhe vais chamar?

— Luzia, a luz da minha noite.

 

 

 

 

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2 Responses

  1. Adorei a tua sensibilidade para um tema tão delicado. Quer seja na aldeia ou na cidade, a mulher sozinha com um filho ainda é estigmatizada como alguém que não soube conduzir a sua vida … quando muitas vezes o que ela mesmo quis foi preservar “a luz da sua noite”. Parabéns Ana Paula

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