Mal rompera a manhã, Josefa encontrava-se na pequena oficina instalada no anexo da casa onde vivia. As mãos manchadas de tinta eram testemunhas do seu ofício. Para além de organizar os pincéis e de verificar a sua funcionalidade, misturava os pigmentos naturais. Preparava as tintas. Afinava tons e degradés. Num pedaço de madeira, experimentava a combinação das cores e ia apurando a qualidade da mistura.
Longe estavam as tarefas religiosas do Convento de Santa Ana, localizado em Coimbra, onde iniciara o noviciado anos antes. Lembrar-se daquele tempo trazia-lhe um misto de sensações: a disciplina rigorosa, as preces incessantes e a serenidade do claustro. Mas não era suficiente. Não conseguiu seguir o que o destino lhe propunha. Decidiu sair. A pintura era uma verdadeira paixão herdada do pai. Ao pintar, continuava a ser serva do Senhor. Ficar enclausurada, dedicando-se apenas às atividades religiosas, não era para o seu temperamento inquieto. Escolhera outra forma de devoção. A arte.
Na pequena oficina, realizava-se como pintora profissional. Estranho. Então não fora educada para ser dona de casa, esposa e mãe? Certamente. Mas ganhava a vida a pintar, e isso desafiava as convenções. Hoje, precisamente, chegara mais uma encomenda. Havia que deitar mãos à obra.
Libânia, a criada, servia-lhe leite fresco numa caneca de barro e pão numa cesta de verga. Conhecia bem os hábitos e gostos da sua senhora. Tinha muito orgulho no seu trabalho, embora não entendesse bem aquela vida. Como conseguia passar horas em frente a um quadro? Para Libânia, era um mistério.
— Como pinta tão bem as florinhas do campo! Ficam lindas nos seus quadros.
— Gostas? Não estou bem certa se concordo.
— Posso dizer só uma coisa? Não é por mal. Se estiver a alambazar-me, diga. Ralhe comigo.
— Desembucha, rapariga.
— Só acho os quadros um bocadinho escuros.
Josefa não lhe ralhou. Também não se deu ao trabalho de lhe explicar que seguia a influência das pinturas flamenga, holandesa e andaluza. Para quê? Coitada, nunca ia perceber, pobre moça. Mas a observação de Libânia não passou despercebida. E se um dia tentasse algo diferente?
Josefa olhou para a mesa. Iniciou o esboço da obra a que iria dar início. Os detalhes dos objetos do dia-a-dia e as peças típicas da terra representavam modelos. As frutas, as flores, a doçaria e a cerâmica eram fontes de inspiração. A vila de Óbidos, onde vivia e de onde o pai era natural, não podia ser mais rica em pormenores e cenários.
— Libânia, vou pintar esta mesa. Gosto tanto do cesto do pão e da caneca. Já tenho uma ideia para a minha composição.
A moça estranhou. Então o que tinha aquilo de especial? Mas a sua senhora lá sabia.
— Pinte, minha senhora. Dê-lhe uns tons alegres. Só assim, não vai parecer pobrezinho.
A rapariga era atrevida, mas Josefa achava-lhe graça à expressão de nariz arrebitado na face tingida de sardas, emoldurada por duas tranças douradas. Era espontânea e ingénua. Coisa já pouco vulgar.
Concentrando-se, foi compondo a esquematização. Ao centro, esboçou um pote de barro anilhado por uma corrente de rosas, as quais havia de pintar alternadamente de vermelho e branco; à esquerda, transformou o cesto do pão numa taça de cerâmica com detalhes que conheceriam o brilho dourado. Recheá-la-ia de belas queijadas de requeijão e abóbora como as que cresciam na sua horta, acompanhadas por tigeladas como as da Lourença, sua cozinheira e juntar-lhes-ia ovos brancos. À direita, ficaria um cesto a transbordar de papoilas, pequenas margaridas e outras flores silvestres. Para aprimorar mais o trabalho, não faltariam ramos de ginjeira e de cerejas carnudas. Já estava mesmo a imaginar o fundo escuro a contrastar com os apontamentos rubros. Até sentia a mistura do odor do óleo da tinta com o do perfume das flores.
A hora do almoço chegou mais depressa do que gostaria. Interrompeu o trabalho. Dirigiu-se a casa para tomar a refeição com a família, não sem antes lavar bem as mãos. O pai, ao olhá-las, sorriu:
— Não paras, minha filha. Estás sempre em ação.
— Um bom mestre me ensinou. Já se esqueceu, meu pai?
Baltazar sabia ter sido o responsável pela opção da filha. Ao mesmo tempo, orgulhava-se do seu trabalho e lamentava não ser devidamente reconhecido. Primeiro, por ser uma mulher a criar, e depois, porque a situação política de Portugal não ajudava.
— Podias ir mais longe, Josefa. Se o reino estivesse em paz, talvez os nossos quadros viajassem. Mas esta guerra com Castela fecha-nos as portas.
— Não perca a esperança, meu pai. Deus estará ao nosso lado.
— Saíste do convento, mas não perdeste a fé. Isso faz-me imensamente feliz.
— Também a mim. Continuo a ser devota através da arte. Deus estar sempre no meu coração.
Libânia serviu o almoço saído das mãos hábeis de Lourença. Josefa apressou-se para voltar ao seu labor. A esquematização que havia esboçado dera-lhe energia para avançar. Enquanto não terminasse a obra, não descansaria.
A tarde foi generosa. A criatividade soltava-se a cada pincelada. Mas a luz ia enfraquecendo. Era hora de parar. Com as mãos firmes, limpou os pincéis.
À noite, no pequeno quarto, cada vez mais ciente do seu propósito, em oração, pedia forças para seguir o seu talento de vida. Ser mulher. Pintar. Servir a Deus.
3 Responses
Lindo!
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