O prédio vazio não me intimida. Adoro a minha companhia sem ter de me controlar pelo relógio ou pela vontade de outrem. Ninguém me pergunta onde vou, ninguém me espera com exigência. Gosto da liberdade crua que existe no silêncio, onde cada gesto é meu, cada impulso nasce e morre sem julgamento.
De manhã, ando pela casa sem cuidar da aparência. Não me apetece maquilhar-me nem vestir uma roupa decente, dessas que se espera de uma mulher adulta, urbana. Gosto de andar ao natural. A pele limpa, os pés descalços, os cabelos despenteados. Os seios soltos, vivos, sem pressa de serem contidos.
À tarde, estico-me no sofá. Leio. Ouço jazz no volume que me apetece. A minha playlist começa sempre com Billie Holiday e termina em Nina Simone. Às vezes, canto em voz alta. Outras, apenas me deixo estar. E muitas, acaricio-me.
No mapa do meu corpo, sou a bússola e o território. Sim, é aí. É esse o ponto. Circundo-o com os dedos molhados de saliva como quem desenha constelações. Avanço. Recuo. Acicato-me. Sim, é aí.
A pele responde com fervor. O ventre arrepia-se. Há um calor que sobe, desce, roda sobre si mesmo como um animal no cio contido. À noite, subo à cobertura do apartamento. Mergulho nua na piscina.
A água envolve-me como uma amante líquida. Rodopio, esguicho, borrifo tudo em volta. Chapinho, dou cambalhotas. Ao sair, bailo. Rebolo a dança do ventre com as ancas soltas, a barriga quente, os braços serpentinos. A lua às vezes espreita, outras finge não ver.
Livre. Inteira. Soberana no meu corpo.
No dia seguinte, fotos minhas correm na net.
Elsa, a ninfa!
Sem rosto, mas o meu corpo inconfundível para quem me conhece.
E para quem não conhece, um convite irrecusável: pele molhada, cabelos colados às costas, seios de mamilos eretos, suspensos num gesto entre o riso e o chamamento.
As imagens não eram vulgares. Íntimas demais para o público. Estéticas demais para o acaso.
A primeira reação foi visceral: RAIVA. Quem me espiava? Depois, mais confusa: EXCITAÇÃO. Quem me via assim? Quem captava esse lado meu com tamanha precisão, com tanto… desejo?
À noite, voltei à cobertura. A cidade respirava silêncio lá em baixo. Levei uma venda. Não por pudor, mas para aguçar os sentidos. Mergulhei. A água estava fria. Arrepiei-me.
Ao sair, pingava tinta invisível. As gotas percorriam-me sem pudor.
Sim, aí. Cada poro um radar. Sim, aí.
Dancei. Para ninguém ou para alguém escondido. Rebolei, girei, deixei a anca ditar o ritmo. A respiração solta, a língua entre os dentes em gemidos sussurrados. O corpo, consciente de ser observado, oferecia-se ao oculto.
Três dias depois, chegou um envelope. Papel grosso. Selado com lacre rubro. Sem remetente. Dentro, uma só folha. Sem palavras. Apenas um QR code.
Um vídeo abriu.
Eu, na piscina. Mas não o mesmo ângulo das fotos. Este era mais próximo. Mais íntimo. A câmara parecia deslizar sobre mim com um olhar carnal. Um olhar que me despia com reverência delicada.
A filmagem terminava com um sussurro:
— Dança para mim, Elsa. Dança. Ninguém está a ver.
Mas alguém estava. Alguém que me via sem me reduzir. Alguém que sabia exatamente onde focar.
Nessa noite voltei a mergulhar. Com a mesma venda. Sem improviso. Cada gesto deliberado. Provocador. Convidava o ar, a lente invisível, o mistério.
Depois, deixei um bilhete no canto da cobertura, entre duas espreguiçadeiras:
“Queres ver-me? Mostra-te primeiro. Estou cansada de atuar para fantasmas.”
Na manhã seguinte, o bilhete desaparecera. No mesmo lugar, uma rosa branca com espinhos ensanguentados. E uma nova folha:
“Nem todos os fantasmas assustam. Alguns só querem tocar sem ferir.
Vês-me se te deixares ver.”
À noite, não dancei. Esperei. Sentei-me à beira da piscina. Nua. Pernas dentro da água. Olhos cravados na escuridão.
O ar vibrava. O silêncio carregado de intenção. Uma sombra moveu-se. Não com timidez, mas com a calma de quem conhece os limites do desejo.
E a ânsia de quem quer mais.
— Tu? — perguntei, quase num sussurro.
A figura não respondeu. Tirou os sapatos. Despiu a camisa. Depois o resto. Entrou na água. Não me tocou. Não falou. Limitou-se a estar. Ali. Comigo. Frente a mim, olhos nos meus. Na ilusão que o ato de ver e ser visto bastasse.
Entre nós, apenas a água. As respirações cruzavam-se em jeito de beijos interrompidos.
A tensão era mais quente do que qualquer carícia apressada.
Permanecemos assim. Um tempo indefinido. A minha nudez não era espetáculo cheio de mãos ávidas de vontade de carne.
A ninfa deixara de dançar sozinha.
O silêncio não precisava de nome. Nem de perguntas. A água oscilava como um segredo compartilhado. A noite envolvia-nos. Nenhuma de nós apressava o instante. Éramos dois corpos e um só pulso, suspenso.
A sombra avançou. A luz da lua tocou-lhe o rosto. Vi-lhe a expressão e foi como se me visse pela primeira vez. Uma quietude feroz. Desejo, sim, mas não vulgar. Era como ser admirada por dentro. Lida nas entranhas o outro estudava-me. Investigava-me. E eu… consenti.
Aproximei-me. A pele quase a tocar a dela, mas ainda não. Um jogo de magnetismo milimétrico. Uma dança invisível.
— És real? — sussurrei.
— Sou o que quiseres ver — respondeu. A voz era líquida, tal como a água à nossa volta. Grave. Quente. Terna. Aproximei os lábios do seu ombro, mas não os beijei. Respirei-a. E senti o seu arrepio. Naquela noite, não fizemos amor. Explorámos a arte de estar inteiras, nuas, disponíveis. Sem urgência. Cada gesto um prelúdio. O toque só teria valor se precedido de contemplação. Levantámo-nos da água, pingando. Corpos colados pelo vapor. Algo tinha começado ali. Não nos despedimos. Cada uma desceu do terraço levando um segredo tatuado na pele.
O prédio continuava vazio. Mas o silêncio já não era o mesmo. Pela primeira vez desejei ser vista apenas pelos ângulos dela. Há formas de ser tocada que começam antes da pele. E há fantasmas que, quando se mostram, nos devolvem a carne com mais verdade.